Meu querido amigo, Ego
Chamam o ego de vício, de veneno, de pecado. Querem reduzi-lo a vaidade pueril, a soberba que corrói. Mas não é isso. O ego é mais vasto, mais profundo, mais humano. O ego é a seiva que sobe pelas veias do espírito e o obriga a não se contentar. O ego é insatisfação. É a recusa em aceitar a vida morna, a rotina que se arrasta. É a força que olha para o comum e diz: “isso não basta”. Sem ele, o homem se acomoda no rebanho, apodrece no conforto, dissolve-se em anonimato. Com ele, o homem arde — e só quem arde pode iluminar. Há um instante decisivo que resume tudo. O jogo em seus segundos finais, a vitória suspensa no ar. Ao lado, o companheiro perfeito, mais forte, mais preciso, pronto para vencer em teu lugar. E tu, com a posse em tuas mãos, escutas a voz: “entrega, passa, garante”. Mas é o ego que se ergue, feroz, e grita: “arrisca”. E arriscas. Porque o triunfo herdado não é triunfo, é esmola. Porque preferes o fracasso verdadeiro à vitória emprestada. Porque a glória não se divide. E...