Meu querido amigo, Ego
Chamam o ego de vício, de veneno, de pecado. Querem reduzi-lo a vaidade pueril, a soberba que corrói. Mas não é isso. O ego é mais vasto, mais profundo, mais humano. O ego é a seiva que sobe pelas veias do espírito e o obriga a não se contentar.
O ego é insatisfação. É a recusa em aceitar a vida morna, a rotina que se arrasta. É a força que olha para o comum e diz: “isso não basta”. Sem ele, o homem se acomoda no rebanho, apodrece no conforto, dissolve-se em anonimato. Com ele, o homem arde — e só quem arde pode iluminar.
Há um instante decisivo que resume tudo. O jogo em seus segundos finais, a vitória suspensa no ar. Ao lado, o companheiro perfeito, mais forte, mais preciso, pronto para vencer em teu lugar. E tu, com a posse em tuas mãos, escutas a voz: “entrega, passa, garante”. Mas é o ego que se ergue, feroz, e grita: “arrisca”.
E arriscas. Porque o triunfo herdado não é triunfo, é esmola. Porque preferes o fracasso verdadeiro à vitória emprestada. Porque a glória não se divide. E se erras, a queda é tua — mas tua também é a dignidade de quem ousou.
Foi assim em cada época: o ego erguendo colunas contra os céus, navegando mares de trevas, desafiando deuses e coroas. Não foi a humildade que fez homens cruzarem abismos; não foi a modéstia que pintou telas eternas; não foi a resignação que escreveu versos imortais. Foi o ego — essa chama insolente que recusa o limite.
Querem que o ego se cale, que se curve, que se apague. Querem que nos contentemos em existir. Mas o ego não é silêncio. Ele é o grito mais íntimo da vida: “afirma-te!”. Ele é faca e coroa, ferida e triunfo. Ele é a cicatriz que prova a luta e o brasão que eterniza a vitória.
Negar o ego é negar a própria condição humana. Assumi-lo é aceitar que somos feitos de fome, de falhas, de riscos — e é justamente aí que mora a grandeza.
O ego não é vilão. O vilão é a mentira que o mascara, a farsa que nos convence a viver vidas sem marca. O ego é humano, demasiado humano. E por isso mesmo, paradoxalmente, é o que nos aproxima do divino.
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