O Menino que Desejava as Estrelas
Era uma vez um menino.
Tinha os pés na terra, mas o coração… em outro lugar.
Era uma daquelas crianças que olham para cima não por curiosidade, mas por saudade de algo que ainda não viveram.
Encantava-se com o céu como quem reencontra uma lembrança.
As estrelas o fascinavam.
E ele as observava como se, de algum modo, já pertencesse àquele lugar.
Durante o dia, admirava o Sol com os olhos semicerrados, sentindo o calor na pele como uma promessa antiga.
Durante a noite, se deitava no quintal, onde ninguém mais olhava para cima, e via nas estrelas um destino.
Havia no seu silêncio uma certeza tranquila:
Ele seria astronauta.
E embora ninguém dissesse isso em voz alta, era fácil perceber.
O jeito que ele estudava.
A forma como treinava.
A disciplina quase natural.
Enquanto outras crianças sonhavam com castelos ou dragões, ele sonhava com um abraço eterno das estrelas.
E não havia vaidade nisso — apenas desejo.
Um desejo simples e puro de pertencer ao espaço.
As pessoas à sua volta sorriam com pena.
Chamavam de fase.
Diziam que era só uma criança com ideias bonitas demais.
Mas o tempo passava, e ele não mudava.
Não duvidava.
Não cansava.
Acreditava com a força de quem respira.
Na adolescência, cruzou caminhos com jovens músicos.
Tinham talento, mas também medo.
Falavam sobre alternativas, sobre dar um jeito se não desse certo.
Haviam trilhas paralelas.
Mas o menino… não conhecia desvio.
Tinha um único caminho, e era para cima.
E então ele cresceu.
E cresceu certo.
Forte, ágil, preparado.
Como se cada célula tivesse sido moldada para flutuar entre planetas.
Chegou o dia.
Após tantos anos, tantos estudos, tantas provas…
Era a véspera do teste final.
Faltava tão pouco.
Tão pouco.
E ele, finalmente, estava pronto.
Mas naquela noite, o acaso — tão banal, tão estúpido — interveio.
Um escorregão.
Um osso quebrado.
Um diagnóstico frio, entregue com gentileza demais.
“Você não poderá mais ser astronauta.”
O mundo seguiu.
As pessoas continuaram.
Os músicos entraram para uma grande academia de artes.
Gravaram álbuns, sorriram em capas, tocaram para multidões.
Realizaram todos os seus sonhos.
E o menino?
Bem…
Ele passou a andar devagar.
Não por causa da perna, mas por causa do peso.
Continuava olhando o céu — como sempre — mas havia algo diferente ali.
Não mais a esperança.
Não mais a certeza.
Apenas o vazio que sobra quando a vida segue… sem direção.
Às vezes, ele sorria vendo os foguetes na televisão.
Às vezes, sonhava acordado com galáxias distantes.
Mas era um sonho sem chão.
Sem corpo.
Sem futuro.
Ele viveu.
Sim, viveu.
Mas sempre ao lado do que queria.
Sempre por perto, mas nunca dentro.
Como alguém que ouve a música do outro cômodo,
mas nunca é convidado a entrar.
E hoje, ele ainda olha para cima.
Em noites limpas, deita-se na grama e observa o céu como fazia em criança.
Não diz nada.
Não deseja nada.
Só sente.
Porque o céu ainda está lá.
E ele ainda o ama.
Ama sem esperança, mas ama Com a imensidão do silêncio
Com a melancolia dos cosmos
E com os pés fincados no solo
Mas sabe — agora sabe — que nem todo amor alcança.
E que às vezes, a coisa mais dolorosa do mundo…
é quase ter sido.
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