Negro de fumo
Gasolina, querosene, diesel, etanol.
Com uma pitada de óleo e, claro, um belo vinho para acompanhar.
O nobre reduzia seu lar ao negro de fumo, popularmente conhecido como carvão ou cinzas. Queimara tudo: cada foto, cada memória, seu quarto, seus pertences — restando apenas a roupa do corpo.
E, com uma faca sobre a própria pele, cravara um lembrete eterno: a data em que decidiu que, a partir dali, não haveria mais retorno. Um contrato em sangue, jurando que faria tudo ao seu alcance para conquistar o que queria.
E o que o jovem nobre buscava tanto assim, a ponto de ir tão longe? Você deve estar se perguntando. Por que alguém faria algo tão estúpido — alguns diriam que é loucura? Deve haver um bom motivo, certo?
Na verdade, não. Era um nobre decadente, de uma família que já fora muito poderosa e agora era apenas uma sombra de seu passado. E, dentre toda a decepção que essa nova geração representava, ele conseguia se destacar — sendo o pior de todos. Não sabia lutar, não tinha oratória para o clero e nem sequer era o primogênito; portanto, jamais herdaria os negócios da família. Era ninguém.
Sentia tanta vergonha disso que faria absolutamente tudo para restaurar ao menos um resquício de honra. Queria realizar algo lendário e compensar todo o atraso de sua curta vida.
Viu, então, uma grande oportunidade. Um dragão havia atacado o castelo do imperador e expulsado todos da capital. Era perfeito. Recuperaria sua honra e, com a gratidão do imperador, ficaria rico. As mulheres aos seus pés, e a glória de sua família restaurada.
Então treinava. Treinava incessantemente e vivia apenas pelo momento de sua grande batalha. Ajudava pessoas no caminho, combatia males menores, e sua fama começava a se espalhar por todo o reino.
Tornara-se alguém extremamente habilidoso. Invejável, eu diria. Provavelmente o melhor combatente que aquelas terras já haviam conhecido.
Então tomou uma decisão. Após uma longa década, repleta dos mais variados sofrimentos, cansara-se — e finalmente se sentia pronto para enfrentar aquele dragão e se tornar o herói lendário que tanto almejava. Faria isso no ano seguinte e, depois, se aposentaria. Porém, não contava com uma notícia…
Recebeu uma carta do próprio imperador. Dizia que ouvira todos os rumores sobre a jornada do não mais tão jovem nobre e lhe oferecia uma vaga na guarda real — como guarda-costas da princesa, provavelmente o cargo mais importante que um guerreiro poderia receber.
Também dizia, na carta, para que esquecesse o dragão. Uma nova capital havia sido construída, e ele se arriscaria em vão. Além disso, oferecia a toda a linhagem do nobre moradia na capital e a restauração completa de seu clã.
Ele teria tudo o que sempre sonhou: dinheiro, honra, reconhecimento. Já havia conquistado fama, e a glória de sua família seria restaurada. Bastava aceitar e viver sua “aposentadoria” feliz e satisfeito, com uma vida tranquila — esquecendo aquele dragão.
Mas… teria o homem orgulho de si mesmo?
Diga-me, leitor: o que o move a acordar dia após dia, ano após ano, e seguir em frente? Alguma motivação? Necessidade? Ou apenas um fluxo infinito ao qual se sente obrigado a seguir, como um mero membro de uma manada?
Talvez qualquer pessoa sã aceitasse imediatamente a proposta. Mas estamos falando de alguém que esteve disposto a queimar o próprio lar pelo incerto. Ele mentia para si mesmo constantemente, dizendo que tudo o que queria era uma vida tranquila, repleta de certezas — mas, se esse fosse realmente seu objetivo, já teria se aposentado há muito tempo.
Mas vos digo o que o movia a acordar todos os dias: a vontade de potência. Queria olhar no espelho e sentir orgulho de quem era. Não um nobre decadente, mas um guerreiro lendário. Salvara inúmeras vilas; poderia se aposentar e parar por ali mesmo. Seria fácil, não é? A vida que o imperador oferecera era perfeita, mas tinha um defeito irredimível: não era sua escolha. Viveria eternamente pensando que poderia ser mais.
Ele cravara, em sua própria pele, um lembrete — e treinara por uma década por um motivo, cuja razão ainda vagava pelo mundo. Nada o faria mudar de ideia. Seu modo de viver era uma aposta total entre o triunfo absoluto e o fracasso completo. Só sabia viver sob seus próprios termos.
Então recusou. E, sentindo-se ofendido por esse “suborno”, partiu, sem hesitar, em direção ao dragão para enfrentá-lo naquele mesmo instante.
Só Deus sabe o destino desse homem. Mas ou morreria como eterna potência, ou retornaria triunfante — como aquele que apontou para uma única direção e seguiu até o fim, fiel à própria escolha. Esse seria o reflexo que veria no espelho.
E, no fim, era isso o que bastava
Comentários
Postar um comentário